Análise.0 - Dinâmicas do Dano: Relações Heteroafetivas
Comentários sobre a vantagem feminina no domínio do dano.
Introdução
Essa é a primeira edição de “Análise.#” um espaço que será usado para o compartilhamento de pesquisas científicas e discussões que considero relevante para um futuro mais equânime aos seres humanos.
É importante primeiro considerar que diante todas as pesquisas e discussões acerca de gênero e sexualidade que existem hoje (e que se fazem extremamente necessárias para uma sociedade mais inclusiva para todas as formas de ser e de se viver), antes de pessoas serem coletivamente representadas pelo termo “sociedade”, pessoas são seres humanos, e antes de sermos seres humanos, somos uma espécie animal.
Assim, as relações heteroafetivas representam uma base biológica e evolutiva para a nossa espécie que parece ter sido deixada de lado pela ótica da ciência quando em realidade, fora a fundação para propagação da nossa espécie.
Nesse contexto, essa análise não visa diminuir, invalidar ou hierarquizar outras orientações e relações afetivas - mas sim, entender qual é o estado atual de ambos os gêneros - masculino e feminino naquilo que concerne essa dicotomia e sua dinâmica afetiva em perspectiva de dano direto (físico) ou indireto (psicológico).
A questão da equidade com o gênero feminino é uma que foi muito brevemente discutida aqui na Agency em duas edições anteriores:
A Edição #15 é uma referência particularmente importante pois discutiu o tema da equidade de gênero não apenas em âmbito comportamental e arquetípico, mas também em âmbito de ontologia teológica - pois religiões, por mais que talvez não estejam muito em moda no pós-modernismo que vivemos, cumpriram e ainda cumprem um grande papel no condicionamento de muitos padrões comportamentais, valores e princípios da sociedade.
“E da costela (tsela) que o Senhor Deus havia tirado do homem, ele fez uma mulher, e a levou ao homem.”
Gênesis 2:22 KJV
O versículo analisado sob a ótica da hermenêutica teológica na Edição #15 soluciona um paradoxo muito grande que existe em uma parte da Bíblia Cristã (Gênesis) que é, em realidade uma herança judaica.
A palavra hebraica original, "tsela" é traduzida como "costela" apenas uma vez em toda a Bíblia. Mas aparece em outros contextos ao longo do Antigo Testamento, e às vezes é traduzida como "lado" ou "câmara" em vez de "costela".
No contexto da história da criação de Eva em Gênesis, "tsela" é tradicionalmente traduzida como "costela". No entanto, alguns estudiosos sugeriram que "tsela" poderia ser melhor traduzida como "lado" ou "flanco", e que a referência a uma costela pode ter sido uma reinterpretação posterior ou uma tradução equivocada do texto hebraico original.
Essa simples diferença pode ter causado uma interpretação muito errônea acerca da origem da mulher na cosmovisão cristã e ocidental pois a diferença entre essas duas traduções se refere à escala - implicar que o gênero feminino fora feito de uma única costela ou uma pequena parte do homem aplica uma noção de escala e dimensão efetivamente desproporcional ao seu papel na criação, enquanto quando implica-se que o gênero feminino fora feito da metade do homem, interpreta-se uma simetria muito mais equânime e justa.
Além desse exemplo de equidade ontológica, existem inúmeros aspectos biológicos, sociais, comportamentais, institucionais, históricos e culturais que podemos pontuar acerca do fato de que o gênero feminino fora suprimido ou diminuido durante a história da humanidade, e esse reconhecimento é fundamental e inegociável. Entretanto, essa análise não focará no gênero feminino, mas sim no masculino.
Pois quando nos comprometemos com a causa da representatividade, devemos treinar nossos olhos para identificar os padrões na sociedade que não parecem funcionar perante muitas classes diferentes de pessoas - e também tudo aquilo que engloba os padrões em questão.
Assim, essa a pesquisa escolhida e os respectivos comentários feitos, não se tratam de:
Apologia ao patriarcado
Negação da opressão histórica feminina
Mas efetivamente tratam de:
A proposta de que verdadeira equidade exige reconhecer sofrimentos de ambos os lados - pois antes de sermos homens ou mulheres, somos seres humanos passíveis de causar tanto dano como benefício para uns aos outros.
Catalogação Agency
Pesquisa em Análise

Comentários & Destaques
Destaque #1
“Sustentamos que, assim como os preconceitos e estereótipos podem desfavorecer as mulheres (muitas vezes em benefício dos homens), pode haver contextos nos quais preconceitos e estereótipos semelhantes desfavoreçam os homens (e talvez beneficiem as mulheres).”
Página.1, Parágrafo 4 (final da seção de introdução)
Comentário: Antes de sermos homens ou mulheres, somos seres humanos com o mesmo exato potencial de crueldade ou gentileza, afirmar que mulheres não são capazes de causar danos a outros seres humanos, sejam eles homens ou mulheres é uma falácia.
Destaque #2
“Sustentamos que um dos principais domínios em que as mulheres são favorecidas em relação aos homens é o de despertar a preocupação de observadores em relação ao seu sofrimento.”
Página.1, Parágrafo 4 (final da seção de introdução)
Comentário: Se o sofrimento feminino é "mais inaceitável", a consequência lógica inversa é que o sofrimento masculino é visto com mais naturalidade ou indiferença - colocando os homens em uma posição de sofrer abusos físicos ou verbais e não conseguir fazer algo a respeito ou ser protegido.
Destaque #3
“Com a esperança de complementar as revisões que enfatizam os preconceitos que desfavorecem as mulheres, consideramos e documentamos abertamente evidências de que alguns preconceitos podem, de fato, desfavorecer os homens.”
Página.2, Parágrafo 2
Comentário: Sob a luz dessa desvantagem, homens se encontram em uma posição fragilizada e banalizam injustiças e abusos que acontecem com eles - sendo, por consequência, desvirilizados de agência; ou reagindo de maneira disfuncional e criminosa, com agressão física, misoginia ou feminicídio.
Destaque #4
“Se considerarmos as taxas básicas de aplicação de danos, os homens cometem a maioria da violência física, uma tendência que é consistente em todas as culturas. Ao longo da história, os homens foram quase os únicos participantes em guerras. Assim, homens de grupos externos frequentemente atacavam grupos ancestrais, levando a uma percepção acentuada dos homens como fontes de perigo.”
Página.2, Parágrafo 8
Comentário: No processo de ser o único gênero que precisa participar compulsoriamente do serviço militar, desenvolveu-se o estigma de que o homem é sacrificável ou descartável em prol do bem-estar coletivo enquanto se criou a imagem do homem como fonte de perigo ou agente de violência.
Destaque #5
“Além disso, os homens não apenas são os perpetradores mais frequentes de agressão violenta, como seus corpos também parecem ser moldados especificamente para o sucesso no combate físico. Eles possuem uma musculatura significativamente maior que a das mulheres, a qual se concentra particularmente na parte superior do corpo, tornando-os substancialmente mais fortes. Em comparação às mulheres, os homens também apresentam vantagens na força de preensão manual e na capacidade de arremesso. Assim, os homens não apenas causam mais danos físicos aos outros, como também são mais capazes de infligir danos substanciais do que as mulheres.”
Página.2, Parágrafo 8
Comentário: Negar isso ou ignorar essa diferença biológica, praticando-se violência física contra mulheres em pleno século 21 é o reflexo de uma disfunção comportamental dentro da heterosexualidade masculina - diante a posição de fragilidade e enquanto não se fundamenta uma referência sólida acerca de como cumprir o papel masculino na sociedade, o papel se torna confuso e se manifesta de maneira irracional ou autodestrutiva.
Quando pensamos no papel do homem na história da sociedade e da humanidade, suas vantagens fisionômicas colocaram-o no papel de ser o “punho firme” ou o responsável pela proteção enquanto, também, pelo prover - entretanto, o autor acredita que o homem contemporâneo não precisa mais de um “punho firme” mas sim, um “pulso firme” - uma diferença sutil que implica em controle refinado ao invés de força bruta, em precisão ao invés de imposição, em habilidade técnica ao invés de domínio físico, autoconhecimento ao invés de repressão emocional.
Destaque #6
“Embora os homens sejam, com mais frequência, as vítimas de violência física por parte de outros homens, já que a maioria da violência física ocorre entre homens - quando os homens exercem violência contra as mulheres, as situações são acentuadamente desiguais.”
Página.3, Parágrafo 1
Comentário: Nesse contexto, e se a prática masculina da violência física em mulheres será na maioria das vezes desigual com as mulheres, a prática da violência verbal e emocional por parte das mulheres, também podem se tornar desigual com os homens pois mulheres possuem mais domínio dos campos emocionais, intuitivos e psicológicos, e também, de acordo com as referências supracitadas, o dano potencial de violência (mesmo que verbal) em homens é banalizado quando em realidade, pode ocasionar ansiedade, depressão, suicídio, insegurança, invalidação de identidade sexual e até mesmo ao ódio (misoginia) se mal assimilado.
Destaque #7
“As mulheres vítimas de agressão sexual podem ser forçadas a gestar, dar à luz e criar os filhos resultantes, cerceando sua autonomia para selecionar parceiros ou para decidir se desejam, de fato, se reproduzir. De um ponto de vista evolutivo, as vulnerabilidades particulares das mulheres à agressão física e sexual podem contribuir para o motivo pelo qual as sociedades exibem uma sensibilidade aguçada e normas de proteção em relação às mulheres em comparação aos homens.”
Página.3, Parágrafo 2
Comentário: A prioridade na proteção física de mulheres é indispensável e esse parágrafo, sem dúvidas, é um dos motivos principais disso. O papel do homem no processo é o da fecundação, um ato rápido e que exige pouco investimento de energia. Já o papel da mulher é o da gestação, um processo que exige meses de esforço físico, recursos do próprio corpo e gera uma vulnerabilidade real que pode prejudicar, em âmbito vitalício, a liberdade, autonomia e agência de uma mulher. Para qualquer sociedade sobreviver, proteger quem garante a próxima geração é uma estratégia de sobrevivência, e não apenas uma obrigação cultural.
Destaque #8
“Em sintonia com as expectativas de que as mulheres sejam mais vulneráveis a danos, elas relatam sentir mais estresse do que os homens em suas vidas diárias. Além disso, em comparação com os homens, as mulheres relatam pior saúde física e mental e buscam assistência médica com mais frequência. No entanto, é importante notar que os homens morrem em idades mais precoces do que as mulheres. Assim, embora as métricas objetivas de sofrimento possam não comprovar uma vulnerabilidade maior das mulheres, elas podem, ainda assim, vivenciar os mesmos problemas como algo subjetivamente mais angustiante do que os homens e comunicar esse sofrimento aos outros com mais facilidade.”
Página.3, Parágrafo 3
Comentário: A facilidade ou flexibilidade em relatar uma degradação da própria saúde física ou mental coloca as mulheres em posição de conseguirem um tratamento ou uma cura, enquanto os homens, com mais rigidez emocional ou presos a um estigma de autossuficiência inabalável, acabam negligenciando sinais vitais de socorro emocional até que a situação atinja um ponto crítico, manifestando-se seja por meio da autodestruição silenciosa da depressão ou pela explosão de uma raiva reprimida, que muitas vezes canaliza a dor em violência. (Se você é um homem e está lendo isso - relate seus sentimentos ou busque ajuda, isso não diminui sua masculinidade, apenas fortalece-a com a coragem e astúcia de quebrar estigmas com um tipo de autossuficiência extremamente atraente para mulheres modernas.)
Destaque #9
“As mulheres tendem a ser muito mais avessas ao risco do que os homens e adotam definições mais amplas de dano. Essa aversão ao risco se manifesta em contextos que variam desde decisões financeiras e empreendimentos de alto risco até o apoio a políticas sociais que protegem contra os riscos da pobreza. Assim, se as mulheres desenvolveram uma sensibilidade maior e uma motivação acentuada para evitar danos em comparação aos homens, os indivíduos podem detectar essas diferenças e, consequentemente, estarem mais atentos ao sofrimento feminino.”
Página.3, Parágrafo 4
Comentário: Se as mulheres são "atentas ao dano", os homens são incentivados a ser o oposto: resilientes e ignorantes ao risco. Silêncio jamais será alarme: como a sociedade se acostumou a monitorar o sofrimento feminino para saber quando agir, ela acabou ficando "surda" para o sofrimento masculino. Quando o homem finalmente demonstra sofrimento, a sociedade muitas vezes não "detecta" o sinal, porque o radar social não está sintonizado nele. Ou seja, ele só é notado quando o problema vira uma "ameaça à integridade física" ou outros tipos de violência.
Eis a grande tragédia: essa ameaça é dupla e bidirecional. Quanto mais o homem se silencia diante das injustiças e do próprio sofrimento, maior é o risco de que essa pressão interna se converta em danos — seja implodindo contra si mesmo ou explodindo contra outros homens e mulheres, tendo então sua própria vida ameçada em múltiplas direções e ameçando vidas externas em múltiplas direções.
Ps. Sem uma conselheira de riscos ao seu lado, o homem perde o contraponto de cautela necessário para equilibrar sua disposição ao sacrifício, ficando muito mais vulnerável a situações de exploração ou perigo extremo que ele, sozinho, não classificaria como ameaças.
Destaque #10
“Se as pessoas enfrentaram incentivos culturais para proteger as mulheres de danos, ou se estão apenas reconhecendo as taxas básicas diferenciadas por gênero de prática de danos e vulnerabilidade, elas podem possuir atalhos cognitivos sintonizados a tais diferenças. Isto é, os indivíduos podem manifestar percepções que lançam as mulheres em papéis que necessitam de proteção e os homens em papéis de perpetração de danos. A teoria do Moral Typecasting (Tipificação Moral) sustenta que, quando os seres humanos observam instâncias de dano, eles instintivamente lançam as partes envolvidas nos papéis agentes do perpetrador que inflige o dano ou no papel passivo da vítima que sofre.”
Página.3, Parágrafo 5
Comentário: Nosso cérebro utiliza atalhos mentais que, por influência cultural e estatística, classificam automaticamente a mulher como vítima e o homem como o agente causador de danos. Essa tipificação do homem como o eterno 'Agente' - aquele que executa funções e provê segurança - torna seu sofrimento invisível, pois o roteiro social não admite vulnerabilidades em quem deveria ser apenas provedor. O resultado é um isolamento crítico: o homem não consegue relatar sua saúde mental porque a sociedade, incapaz de enxergá-lo como vítima, ignora sua dor, deixando-o sem opções diante de suas próprias crises ou até mesmo julgando-o culpado em contextos onde é inocente.
Destaque #11
"Os homens tendem a ser associados a traços que denotam poder e status, e costumam ser considerados menos calorosos do que as mulheres. Todas essas características conotam agência, ou seja, a capacidade de exercer a própria vontade no mundo, o que facilita a classificação deles no papel agêntico de perpetrador. De fato, as pessoas mantêm associações implícitas entre a masculinidade e o potencial de causar danos, como a violência motivada pela raiva."
Página.3, Parágrafo 6
Comentário: Nesse contexto, ser 'calorosa' é transmitir afetividade, empatia, gentileza, amabilidade e cordialidade: traços que funcionam como um convite ao cuidado - entretanto, o autor não concorda com a ideia de que uma enorme parte dos homens são menos calorosos que mulheres atualmente - muitas mulheres perderam essa capacidade de acolhimento devido a preconceitos e ódio para com o gênero oposto. Existem muitos homens que se tornam mais calorosos no processo de desconstrução de estigmas masculinos enquanto algumas mulheres se tornam frias no processo de desconstrução de estigmas femininos - se um cumpre o papel do outro e não se reconhece isso, um busca no outro aquilo que não precisa - gerando conflitos, frustrações amorosas, traumas e desentendimentos.
Destaque #12
“Na maioria dos países, as mulheres apresentam resultados mais favoráveis do que os homens (medidos pela satisfação com a vida, expectativa de vida saudável e matrícula educacional). No entanto, isso não se aplica a todos os países, e tais vantagens femininas estão associadas a níveis mais elevados de desenvolvimento humano. Assim, o desenvolvimento parece estar associado a melhores resultados entre as mulheres.”
Página.4, Parágrafo 2
Comentário: À medida que uma sociedade evolui e se torna mais desenvolvida, ela foca seus recursos e proteções principalmente na melhoria da qualidade de vida das mulheres. Enquanto os indicadores femininos sobem com o desenvolvimento, os homens não acompanham esse ritmo na mesma proporção. Em sociedades desenvolvidas, a vida torna-se "mais fácil" para a mulher em termos de saúde e educação, mas o homem continua preso ao papel de Agente (provedor/protetor), sem necessariamente colher os mesmos benefícios subjetivos ou emocionais.
Destaque #13
“Além da idade jovem, um dos preditores mais fortes para a identificação feminista e atitudes igualitárias de gênero é o alto nível de educação. Análises longitudinais sustentam que os estudantes se tornam mais igualitários em relação às questões de gênero durante a faculdade. Assim, o ambiente acadêmico pode ser um espaço especialmente liberalizante. De fato, estimativas americanas sugerem que a maioria dos docentes se identifica como liberais — um padrão que é especialmente pronunciado nas ciências sociais.”
Página.4, Parágrafo 4
Comentário: Em outras palavras, quando não se exercita o cérebro como se exercita os outros músculos do corpo - e aqui considero o cérebro um músculo por conter tecido fibroso - atrofia-se a capacidade de pensar politicamente de maneira crítica, inovadora e coerente com um futuro que seja mais criativo, mais autônomo e mais próspero para todos os grupos sociais; em contraste com uma abordagem conservadora ao pensamento político que visa proteger tradições até mesmo quando seu tempo útil de utilidade já expirou, como por exemplo quando se gasta mais dinheiro pedindo um Taxi ao invés de um Uber. Resguardar origem, estruturas, segurança e valores ancestrais é fundamental para qualquer sociedade mas se marcas de produtos se reinventam a todos os momentos, o que exatamente de conservador existe no livre mercado do capitalismo a não ser os consumidores que buscam consumir aquilo que é inovador e mais benéfico mas que mesmo assim, pensam de maneira conservadora?
Destaque #14
“Nossas quatro explicações propostas — ou alguma combinação delas — devem levar à previsão de que as pessoas exibirão respostas particularmente protetivas e solidárias ao sofrimento das mulheres em relação ao dos homens. As evidências desse viés na detecção de danos se manifestam em contextos que variam desde danos graves (como a morte) até formas menos tangíveis, incluindo representações simbólicas.”
Página.4, Parágrafo 8
Comentário: "Representações simbólicas" refere-se a qualquer forma de dano que não seja uma agressão física direta ou imediata, mas que carrega um significado de desrespeito, degradação ou perda de status. Danos psicológicos e emocionais são menos tangíveis pois diferente de uma flecha no braço que causa dor física imediata, o dano psicológico pode ser absorvido inconscientemente, assimilado em trauma e se manifestar de maneiras complexas e destrutivas em um período próximo ou distante do episódio de agressão - o acúmulo de traumas não identificados ou processados pode levar a danos graves como morte por suicídio ou autoflagelo.
Destaque #15
“Esse viés de proteger as mulheres estende-se para além dos dilemas de sacrifício e se manifesta em níveis mais básicos de danos físicos e psicológicos. Quando os indivíduos tiveram a oportunidade de ganhar dinheiro às custas de outra pessoa, eles sacrificaram mais dinheiro para evitar que uma mulher sentisse choques dolorosos do que um homem. As pessoas também relataram sentir mais piedade quando expostas a fotos de mulheres (em comparação a homens) sentindo dor. Esse viés de gênero foi novamente eliminado quando os indivíduos estavam fora de suas janelas reprodutivas (ex: idosos), sugerindo ainda que a maior tendência de proteger as mulheres está enraizada em assimetrias nas capacidades reprodutivas.”
Página.5, Parágrafo 2
Comentário: Se o nosso cérebro age baseado em instintos de milhares de anos atrás, ele está operando em um modo "conservador" por natureza. Entretanto, como já ressaltado, o instinto em questão está prejudicando ativamente a saúde dos homens por colocá-los em uma posição de constantemente 'pisar em ovos' perante a própria humanidade. Por exemplo, de um lado, exige-se a agência e a iniciativa de se aproximar uma mulher, assumindo-se o risco e a dor da rejeição mas do outro, se um homem não se aproxima de uma maneira inegavelmente perfeita - se cria imediatamente um contexto passível de represálias e danos (além da ferida da rejeição) que são banalizados e desconsiderados tanto pelo próprio homem quanto pela mulher e também todo o resto da sociedade. Se o papel do sol é iluminar, pune-se o sol por esquentar demais?
Destaque #16
“Essa preocupação maior com os danos causados às mulheres estende-se também às formas simbólicas. Utilizando artigos de divulgação científica manipulados experimentalmente, Stewart-Williams e colaboradores demonstraram que as pessoas avaliam as mesmas descobertas científicas como mais prejudiciais, menos importantes e menos críveis quando estas revelam que as mulheres têm pontuações mais baixas em um domínio socialmente valorizado (como o desenho) ou mais altas em um domínio socialmente condenado (como a frequência de mentiras), em comparação aos homens. Essas descobertas sugerem uma aversão até mesmo a formas simbólicas de dano, em que verdades científicas retratem as mulheres sob uma ótica desfavorável.”
Página.5, Parágrafo 3
Em outras palavras, um estudo que aponta por exemplo que mulheres mentem mais que homens teria menos credibilidade do que um estudo que aponta que homens mentem mais que mulheres. Isso cria um ambiente onde a mulher é protegida até de críticas legítimas, fatos ou argumentação científica, enquanto o homem está exposto a qualquer tipo de julgamento. Se um homem demonstra fraqueza ou comete um erro, a sociedade o descarta ou o pune severamente, pois ele "quebrou" sua única função: a de ser um provedor/protetor infalível até mesmo em uma economia global que, por exemplo, pode gerar mais déficit do que superávit patrimonial.
Destaque #17
“Não afirmamos que homens ou mulheres sofram mais do que o outro, nem negamos as diferenças muito reais nas experiências entre ambos. Esta revisão não é definitiva, mas sim uma oportunidade para considerar as pesquisas atuais sobre vieses, identificar implicações potenciais e convidar a pesquisas adicionais. Esperamos que, ao fazer isso, tal nuance possa desescalar os conflitos baseados em gênero e promover a empatia e a validação do sofrimento, independentemente do gênero.”
Página.5, Parágrafo 7
As autoras do estudo pontuam claramente que o material não desconsidera as enormes diferenças e implicações sociais entre os dois gêneros, entretanto, apontam que o início desse diálogo se faz fundamental para se garantir mais segurança não apenas para os homens, mas também para as mulheres - ao tornar mais plausível, uma sociedade justa em termos de percepção de dano para ambos os lados.
Destaque #18
“Se é cognitivamente mais desafiador reconhecer os homens como vítimas - talvez devido a uma percepção aumentada de sua agência - então a sociedade pode estar subestimando ou negligenciando áreas onde os homens sofrem. Por exemplo, em comparação às mulheres, os homens têm maior probabilidade de estarem em situação de rua, abandonarem a escola, sofrerem com o abuso de substâncias e morrerem por suicídio. Essas tendências sugerem que há um sofrimento generalizado entre os homens. Se os indivíduos tendem a demonstrar uma preocupação reduzida em resposta ao sofrimento masculino (em relação ao feminino), então é possível que as origens, os fatores contribuintes e as potenciais intervenções para esse sofrimento sejam subinvestigados, subfinanciados ou subnotificados. Talvez, ao lançar luz sobre essa preocupação reduzida, investigações empíricas possam estimular novas pesquisas, financiamentos e políticas para abordar de forma mais eficaz o sofrimento masculino.”
Página.6, Parágrafo 1
Comentário: :(
Destaque #19
“Além de ignorar as perpetradoras do sexo feminino, é possível que as suposições de danos enviesadas para o lado masculino falhem em detectar padrões de agressão que são tipicamente femininos. Em comparação aos homens, as mulheres têm probabilidade igual ou maior de se envolverem em agressão indireta, que emprega táticas como espalhar rumores, ostracismo (exclusão social), olhares hostis e fofocas veladas.”
Página.6, Parágrafo 3
Comentário: Se consideramos as diferenças biológicas apontadas no [DESTAQUE #5], faz muito sentido que as ferramentas femininas para ataque ou defesa sejam indiretas - como não possuem a mesma constituição física voltada para o combate, as mulheres se protegem e exercem poder através da liberdade de expressão - ou seja, a capacidade de se comunicar, influenciar sentimentos, moldar reputações e articular alianças sociais. Enquanto a força masculina é direta e visível, a 'arma' feminina é sutil e psicológica: o uso da linguagem para isolar adversários, buscar proteção ou aplicar danos indiretos que podem trascender ou se equiparar a muitos tipos diferentes de danos diretos.
Destaque #20
“Talvez, ao apresentar uma descrição mais equilibrada do preconceito e da discriminação de gênero, os indivíduos possam se sentir tanto mais reconhecidos em seu próprio sofrimento quanto mais empáticos com o sofrimento dos outros gêneros. Comunidades online, como aquelas que se identificam como celibatários involuntários (incels), sugerem que as relações de gênero podem estar frágeis ou se deteriorando. Compreender melhor as fontes de queixas e ressentimentos pode ser um passo importante para promover a compaixão entre homens e mulheres.”
Página.6, Parágrafo 4
Comentário: Grupos extremistas são um sintoma de que as relações afetivas estão "deteriorando". Isso acontece porque, quando o sofrimento de um grupo (neste caso, o masculino) é ignorado por uma política "atrofiada", esse sofrimento vira ressentimento e raiva que se manifesta em comportamentos extremamente disfuncionais e tóxicos.
Destaque #21
“Traços tipicamente associados à masculinidade (ou agência) podem predispor os indivíduos a serem percebidos como perpetradores, independentemente de seu sexo biológico ou identidade de gênero, enquanto traços alinhados à feminilidade (ou passividade) podem aumentar a probabilidade de esses indivíduos serem percebidos como vítimas. Alternativamente, é plausível que homens que exibam traços altamente femininos recebam menos simpatia, já que seu desafio às expectativas de gênero da masculinidade pode evocar punição social.”
Página.6, Parágrafo 7
Comentário: Até mesmo quando o homem moderno tenta ser desconstruído e “caloroso” ele é punido por isso na percepção da própria mulher ou da sociedade. É como se não importasse para qual direção tentássemos andar, vamos escorregar e tomar um tombo. É certo e também é fato de que o patriarcado se constituiu com muita injustiça, desequilíbrio e opressão perante o sexo feminino. É certo que uma reparação histórica se justifica, entretanto, não é com crueldade e muito menos com exclusão, perseguição/punição sistemática e culpabilidade a priori que as mulheres vão passar a exercer um matriarcado vanguardista - é com equidade, agência, justiça, compaixão e ciência.
Destaque #22
“Esta revisão teve como objetivo complementar, e não substituir, a literatura existente sobre a natureza e o impacto dos preconceitos contra as mulheres. Assim como é crucial examinar estereótipos e preconceitos que possam desfavorecer as mulheres, também é valioso documentar e refletir sobre as evidências empíricas que sugerem suposições e tratamentos prejudiciais em relação aos homens. Tais considerações podem destacar contextos de sofrimento negligenciado, oportunidades de intervenção ou fontes de falhas de comunicação entre homens e mulheres. Ao fornecer uma avaliação mais equilibrada e imparcial das disparidades de gênero nas suposições e no tratamento social, os pesquisadores podem identificar domínios para exploração futura, os formuladores de políticas podem corrigir omissões e os indivíduos podem desenvolver compaixão por formas alternativas de sofrimento.”
Página.7, Parágrafo 3 (Conclusão)
Comentário: O texto deixa claro que reconhecer o sofrimento do homem não apaga o da mulher. A dor masculina é uma "forma alternativa" de dor (frequentemente invisível ou simbólica) que a sociedade ainda não aprendeu a ler. Reconhecer essas 'formas alternativas de sofrimento' exige o que a nossa política de gênero atual evita: mais esforço cognitivo e abertura. Se não exercitarmos o cérebro para enxergar além do óbvio, continuaremos punindo o homem de forma arbitrária por qualquer motivo, mantendo-o preso a um tempo útil que já expirou. A verdadeira autonomia só virá quando a política deixar de ser um eco de instintos conservadores e passar a ser um exercício de criatividade e compaixão universal.
Conclusão
O início do diálogo sobre um tema nunca será capaz de promover mudanças, resultados e transformações imediatos, entretanto, cataliza o início de novas questões, novas maneiras de se pensar e novas capacidades de se identificar incongruências perante nossa maneira de ver e interagir com o mundo.
Esse estudo e esses comentários não pontuam que todos os mecanismos de proteção as mulheres que estão em efeitos hoje devem ser modificados ou reconsiderados pois cuprem, em conjunto, um papel fundamental que possibilita a reparação histórica entre os gêneros.
Entretanto, conscientizar-se melhor acerca do que significa dano tanto em âmbito físico quanto psicológico e emocional é uma ação fundamental para se entender melhor as dinâmicas heteroafetivas de hoje em dia. Danos indiretos e psicológicos podem assumir a mesma letalidade (mesmo que subjetivamente) que danos diretos e físicos - e nesse sentido, a sociedade deve se informar e educar para garantir que não se use para atacar aquilo que deveria ser usado para se defender.
Assim, sem colocar de lado os direitos e as salvagurdas instituídas para as mulheres, a observação civil e a prática da justiça devem ser mais coerentes e despertos perante a realidade e agora a ciência que aponta uma desigualdade preocupante na dinâmica afetiva que é justamente a base do passado e a ponte para o futuro da sociedade: a heteroafetividade.






