Caixa de Pandora
Um compilado das minhas fotos mais recentes, descobertas e algumas outras coisas.







25. Introdução
Olá, leitor!
Já se passaram mais de dois anos desde a nossa última edição aqui na Agency.
Sinto que perdi um pouco a mão que eu tinha para escrever essas newsletters.
Eu sei que dois anos é muito tempo, mas espero que você não sinta que eu simplesmente sumi. Dar ghosting não é legal.
Talvez eu tenha ficado sem palavras, usei palavras demais nas edições anteriores. Talvez eu simplesmente não tenha conseguido encontrar tempo para escrever para minha querida audiência. Talvez meu pai seja o único assinante pago da Agency e, por isso, alimentar esta newsletter com mais conteúdo tenha se tornado insustentável com o tempo.
Mas aqui vai uma tentativa de recuperar esse músculo.
E, ao mesmo tempo, garantir que o investimento do meu pai esteja valendo cada centavo.
Porque este assunto pode ser tão relevante para designers e criativos quanto para praticamente qualquer outra pessoa no mundo.
Afinal, as experiências digitais moldam a experiência humana de hoje.
Hoje enxergamos o mundo através de telas. Como, por exemplo, acontece agora, enquanto você lê estas palavras. Cada interação que você tem com um dispositivo é uma experiência construída por uma pessoa: sistemas, fontes, botões e cores estrategicamente escolhidos para tornar essa experiência melhor.
E então…
Hoje me peguei pensando: “Como o ofício de criar aplicativos e softwares molda a forma como alguém enxerga o mundo?”
O que acontece com a mente quando ela se coloca repetidamente no lugar de um usuário? Quando você precisa conceber as interfaces, os botões e os sistemas que ajudam as pessoas a navegar pelas diferentes ferramentas disponíveis hoje.
Uma pergunta muito parecida também pode surgir para qualquer pessoa que lide diariamente com a internet e dispositivos modernos: “Como interagir com telas todos os dias molda a minha forma de enxergar o mundo?”
Quantas vezes você tocou em uma tela hoje? Quantos cliques o seu mouse... clicou?
Você consegue viver sem telas, leitor?
Se você se perder no meio da floresta tendo apenas um isqueiro BIC no bolso, consegue acender uma fogueira para passar a noite sem Google, Siri ou uma IA dizendo o que fazer?
Afinal, o que realmente significa ser dependente de interfaces digitais? Realizar tarefas essenciais da vida por meio de celulares ou computadores? Simplesmente pegar o celular e rolar o feed quando está entediado? Precisar de Wi-Fi para obter informações essenciais à própria sobrevivência.
Nah.
E aqui vai uma pergunta ainda mais intrigante: quão distante está a sociedade de desenvolver aquilo que William Gibson descreveu nos livros da trilogia Sprawl como uma “dependência crônica do ciberespaço”?
O que acontece se ficarmos tão absorvidos pela dimensão digital que começarmos a negligenciar nossos próprios corpos, chegando até mesmo a esquecer de comer e a nos ressentir por ter que nos desconectar para atender necessidades físicas básicas?
Isso já está acontecendo? Está prestes a acontecer? Como isso... se parece?




Vamos mergulhar mais fundo no assunto.
25.1 Entendendo uma Cosmologia
Em que tipo de mundo as interfaces digitais nos ensinam a acreditar que vivemos?
A palavra cosmologia vem do grego:
κόσμος (kósmos) = ordem, organização, o mundo/universo ordenado
-λογία (-logía), de λόγος (lógos) = relato, discurso, estudo, razão
Quando casamos essa raiz ao sufixo, chegamos a cosmologia ≈ “o estudo da natureza e da origem do universo (ou da realidade)”, segundo Cambridge.
Mas muita atenção aqui, porque a raiz kósmos, em seu sentido mais antigo, significa “ordem” ou “arranjo ordenado”. E é daí que chegamos à principal pergunta por trás desta edição da Agency: “Como as interfaces digitais nos ajudam a ordenar e navegar pela realidade?”. Ou, de forma menos filosófica: “O que colocar botões em todos os lugares faz com o cérebro do Homo sapiens?”
Carl Sagan foi um famoso cientista e cosmólogo que enxergava a existência humana através de uma lente cosmológica fundamentada na ciência. Ele passou boa parte da vida tentando descobrir exatamente onde nos encaixamos entre as estrelas e os planetas, como uma pequena formiga tentando calcular as dimensões do planeta Terra, ou a própria Terra tentando compreender seu tamanho diante de tudo aquilo que se encontra espalhado pela galáxia.
Como sua lente estava fundamentada na ciência, toda tese que ele concebia precisava ser explicada por meio de cálculos formais e validações lógicas. Em sua maneira cosmológica de enxergar o mundo, não havia espaço para religiões, magia, mitos, deuses ou unicórnios. É por isso que ele escreveu, de maneira célebre, em O Mundo Assombrado pelos Demônios:
“Para mim, é muito melhor compreender o Universo como ele realmente é do que persistir na ilusão, por mais satisfatória e reconfortante que ela seja.”
Carl Sagan
Eu respeito isso, Sr. Sagan, mas, para mim, parece um pouco entediante.
Se a vida fosse tão prática assim para todo mundo, nem teríamos tempo, nem encontraríamos utilidade, em criar criaturinhas mitológicas fofas como o Grogu.
Tente viver sem esse pequeno tipo de sabedoria.
Agora, falando mais sério...
Estou apontando para a coisa mais importante que precisamos entender sobre cosmologia.
Mesmo que você seja um cientista da... cosmologia, como Sagan, ainda assim precisará da sua própria cosmologia para interpretar o mundo.
Embora Carl Sagan estudasse cosmologia profissionalmente, ele também a abordava através de uma cosmologia própria: seus valores, suas premissas, seu senso de verdade, sua lente particular, sua visão de mundo, sua própria... cosmologia.
Assim, nossa perspectiva cosmológica da vida ocupa o diretório “raiz” da maneira como interpretamos o mundo. Ela molda aquilo que acreditamos que a vida seja, o que importa dentro dela e o que entendemos que estamos fazendo aqui, em primeiro lugar.
É em parte por isso que diferentes culturas podem habitar a mesma realidade física e, ainda assim, navegar pela vida de maneiras radicalmente diferentes.
Cristãos podem buscar transcendência através do amor, da fé e do sacrifício.
Budistas podem buscar libertação através do desapego, da consciência e da superação do sofrimento.
Hindus podem compreender a vida através dos ciclos de nascimento, morte e renascimento, buscando libertar-se desse ciclo por meio da realização espiritual.
Muçulmanos podem compreender a vida como submissão a Deus, guiada pela fé, pela disciplina e pela responsabilidade moral.
Taoistas podem buscar harmonia alinhando-se ao fluxo e à ordem natural da existência, em vez de tentar impor-se sobre ela.
Vikings podiam entrar em batalha acreditando que uma morte honrosa poderia lhes garantir um lugar em Valhalla, onde poderiam festejar, beber, lutar e viver entre guerreiros lendários no salão de Odin.
E um materialista científico como Sagan pode buscar significado naquilo que pode ser observado, medido e compreendido.
Mesmo planeta.
Cosmologias diferentes.
Diferentes visões de mundo para interpretar a realidade.
Acreditar que todos precisam interpretar a existência através da mesma lente é uma das formas mais antigas de ignorância. É como insistir que um usuário de Android e um usuário de iPhone não podem conversar pelo WhatsApp porque seus sistemas operacionais são diferentes.
Os aplicativos rodam sobre códigos diferentes, as interfaces até se parecem, e a mensagem ainda chega ao destino. Sistemas diferentes não impedem a conexão, apenas processam as coisas de maneiras diferentes.
O mesmo vale para as pessoas. Mentes diferentes, sistemas operacionais diferentes, a mesma capacidade fundamental de compreender umas às outras.
25.2 Entendendo Interfaces
E por que elas são invisíveis quando realmente funcionam.
Aquilo que se pode argumentar ser uma das primeiras interfaces da humanidade pode ser encontrado em um dispositivo mecânico chamado tear de Jacquard. Ele utilizava cartões perfurados substituíveis para controlar operações repetitivas e tecer padrões em tecido. Esse sistema como um todo era o que hoje consideramos uma interface: uma pessoa podia programar o comportamento de uma máquina sem tocar diretamente em seu mecanismo.

Mais tarde, o sistema de cartões perfurados do tear de Jacquard tornou-se uma base conceitual para a computação. Charles Babbage fez referência a ele no projeto de sua Máquina Analítica, e Ada Lovelace, ao escrever notas sobre esse projeto, produziu o que hoje é considerado o primeiro programa de computador publicado, décadas antes de existir qualquer computador eletromecânico.
Avançando até o presente, estamos cercados por dispositivos eletromecânicos e digitais que ditam a forma como vivemos, como se nós mesmos tivéssemos nos tornado os cartões perfurados, padronizados e lidos por sistemas cuja forma raramente conseguimos enxergar.
Houve uma manifestação específica das interfaces entre esses dois períodos que vale a pena destacar. Trata-se de uma tela que a maioria das pessoas já viu pelo menos uma vez na vida.
Estranhamente, ainda mantemos uma relação muito parecida com as interfaces daquela época em que elas eram apenas telas de fliperama nos pedindo para “Inserir uma moeda”. É como quando você navega pelo catálogo da Netflix e, antes de conseguir dar play em um filme, recebe a mensagem: “Assine”.
Assim, se desconstruirmos essa dinâmica... A máquina possui algo que queremos, seja utilidade ou entretenimento, nós a ativamos, na maioria das vezes pagando para desbloqueá-la, e então interagimos com a interface através de um botão, pressionando “iniciar”.
Em determinado momento, as interfaces surgiram para nos ajudar a remover atritos dos processos humanos, como tecer enormes quantidades de belos padrões em tecido. Nesse sentido, elas evoluíram através de avanços científicos quase milagrosos e muito trabalho de engenharia para automatizar e acelerar grande parte das nossas indústrias e da nossa vida cotidiana, tornando a vida mais fácil, com menos atrito, ao nos permitir largar a agulha e deixar que as máquinas façam o trabalho pesado, ou seja, produzam por nós.
Mas alguma coisa aconteceu no caminho. As interfaces se voltaram contra nós! Sua utilidade prática e seus recursos de engenharia começaram a ser protegidos por uma barreira: “Se você quer permissão para me usar, faça X”.
Pegue o Instagram como exemplo. Tente visualizar um perfil sem ter uma conta e, depois de alguns segundos, a tela trava: “Entre para ver mais”. Isso é basicamente um “Insira uma moeda” usando uma moeda diferente. Mas a verdadeira barreira nem sequer é a tela de login. É o próprio algoritmo. Para realmente ser visto na plataforma, que é justamente a utilidade pela qual aparecemos ali, você precisa alimentá-la com engajamento, curtidas, comentários, tempo de visualização, consistência, e entregar sua privacidade no processo.
As máquinas antigas pelo menos diziam o preço. Coloque uma moeda, ganhe uma vida. Simples assim. Essas novas não dizem nada. Você acaba performando em troca de um alcance que não consegue medir, submetido a uma taxa que a máquina nunca publica e que ela silenciosamente monetiza através de anúncios.
Bem, leitor, sinto muito por dar a notícia... mas Tyler Durden disse isso primeiro.
As coisas que você possui acabam possuindo você.
Chuck Palahniuk, Fight Club
Então… dispositivos e interfaces estão hoje por toda parte em nossas vidas pessoais e profissionais. Eles nos bombardeiam com botões e utilidades incríveis que vêm acompanhadas de um preço. Mas uma coisa mudou fundamentalmente: nós os criamos para remover atritos, porém desbloquear o acesso a eles se tornou justamente o atrito do qual precisamos desesperadamente nos livrar.
Nuss. Só de escrever o parágrafo anterior já senti meu cartão sendo furado.
E você pode rir da ambiguidade dessa última frase, mas sabe que o seu cartão de crédito também pode acabar sendo perfurado pelas minhas interfaces. Hehe.
E então, como nós brasileiros costumamos fazer diante de uma tragédia... todos damos risada, até lembrarmos de quantos botões precisamos apertar para cancelar aquela assinatura que não usamos mais
Aí damos as mãos e choramos juntos.
Não porque ainda teremos que apertar mais botões ao longo de uma vida aprisionada por botões...
Mas porque, para começar a assinatura, bastava apertar um único botão.
É no cancelamento que o atrito finalmente volta para casa, agora com dez vezes mais botões.
Booyah.
25.3 Casando com a Empatia
E como fazer um bom design nasce de um compromisso com a empatia
Tenho que admitir, troquei de cavalo no meio do rio no tópico anterior.
Minha intenção era entrar na parte técnica e explicar como funciona o Design de Interfaces, mas o velho rabugento que habita meus 30 anos de idade aproveitou a oportunidade para abordar interfaces como história cultural e filosófica, só para que eu pudesse furar o cartão do Zuckerberg.
Culpado! (Ele, não eu. Eu sou apenas a testemunha com um rancor e uma metáfora.)
Voltando para o cavalo...
Existe todo um campo de estudo dedicado a formar pessoas para projetar interfaces. Ele se chama User Experience Design, ou Design de Experiência do Usuário.
Em Design.2 - Demystifying UX/UI Design Pt.1, expliquei os conceitos fundamentais por trás desse campo de estudo e tracei uma distinção clara entre consumidor e usuário. Hoje em dia, todos nós somos os dois.
Mas aqui vai algo sobre o qual eu ainda não falei...
Sapatos.
Costumamos traduzir a capacidade, virtude ou habilidade da empatia através da expressão popular: “colocar-se no lugar do outro”. Em inglês, a expressão é ainda mais literal: “colocar-se nos sapatos de outra pessoa”.
E essa é a coisa fundamental de que todo tipo de artesão ou designer precisa para se destacar em seu ofício.
Porque tudo que é projetado, é projetado para alguém - e antes de conseguir projetar qualquer coisa para alguém, você precisa caminhar por onde essa pessoa caminha, afinal, é você quem está pavimentando a estrada.
Nesse sentido, empatia não é uma soft skill que você simplesmente salpica por cima do ofício. É o material com o qual você constrói. Você pode ter uma técnica impecável, uma tipografia brilhante, um código elegante, uma sola lindamente projetada e, ainda assim, produzir algo que não serve em ninguém, porque você desenhou para um pé que nunca se deu ao trabalho de estudar ou observar.
E assim chegamos ao tema principal desta edição.
A maldição de ter que me colocar no lugar de tantas pessoas quanto eu for capaz de imaginar.
Se hoje em dia nem mesmo pessoas religiosas fazem isso, por que eu deveria fazer isso como parte do meu trabalho?
Chega. Eu me demito.
*Larga o artigo e sai para dar uma caminhada.*
Esquece. Acabei de me contratar novamente.
Porque, com o Marketing da Autonomia, eu sou o CEO da minha própria vida.
E eu adoro me colocar nos sapatos dos outros.
Mesmo que alguns sapatos sejam grandes demais, outros sejam bem pequenos e alguns até cheirem mal.
Existem pés de todos os tipos e, se você não consegue entender isso como designer...
Tente outra profissão, padawan.
Porque nem todo ser humano se importa em cultivar empatia.
E talvez esteja tudo bem, porque esse é o sapato em que essa pessoa vive...
Mas o verdadeiro design não pode se dar a esse luxo.
Na verdade, qualquer pessoa consegue se colocar nos sapatos de outra.
Você só precisa de um pouco de imaginação.
Mas como, exatamente, você entra na... cosmologia de alguém?
Fácil. Leia a Agency.
Ou...
Cultive o coração, ou o ofício, de um designer centrado no ser humano.
Na verdade, algum tempo atrás encontrei um termo novo na internet e nunca mais consegui esquecê-lo.
“Super Empata”
Super empata é um termo da psicologia popular usado para descrever uma pessoa com intensa sensibilidade emocional que aprendeu a estabelecer limites firmes e identificar manipulações.
Embora normalmente não haja nada de “heroico” em ser “super” em alguma coisa...
Existe, de fato, um trabalho heroico a ser feito através do design.
Porque, como eu disse no passado...
Quando as coisas não funcionam no presente, um novo futuro precisa ser desenhado.
E não faz absolutamente nenhum sentido projetar um futuro apenas para si mesmo.
Em um planeta com tantos pés. Com ou sem chulé.
Mas atenção, jovens padawans, aspirantes a designers, designers novatos e maestros do design...
Quando você faz isso por tempo suficiente, essa capacidade evolui para “super” e eventualmente chega ao estágio “crônico” (profundamente habitual) que também é um termo normalmente usado para doenças.
Talvez ser “super” também seja uma doença.
Olhe para o Batman...
Aquele pobre sujeito, considerado super-herói, salva Gotham City todos os dias, mas sempre acaba sozinho em sua Batcaverna.
Será que ele só dá socos nos vilões ou também em quem tenta fazer amizade com ele?
Acho que todos podemos concordar que não é normal se vestir de morcego.
Especialmente quando você poderia se vestir como uma linda gaviota branca...
Temos um diagnóstico complexo aí: depressão gótica urbana contemporânea ma-ra-rvel-hosa
Enfim... estou divagando porque não quero falar sobre a minha doença.
Não quero encarar a verdade!
Não aguento mais.
Preciso procurar algum remédio ou tomar uma injeção nas nádegas.
Preciso publicar este artigo sem fazer uma revisão fiel, obsessiva e torturante da minha gramática.
Preciso me livrar dessa necessidade de tornar a sua experiência de leitura... PERFEITA!
E se isso não funcionar... estou condenado.
Condenado a simular a sua realidade em algum canto da minha mente.
Condenado a remover todos os atritos da sua vida.
Condenado a me imaginar nos seus sapatos e vagar pelos seus medos, desejos, sonhos, significados, cosmologia e, inevitavelmente... pelos seus pés fedidos, leitor.
E não há absolutamente nada que você possa fazer a respeito.
Booyah.
Sobre o Autor
Thiago Patriota
Paciente de empatia crônica, atualmente em tratamento e doente demais para escrever mais um parágrafo de biografia.









